quinta-feira, 27 de junho de 2019

Expedição Solstício de Inverno - primeiro dia


Acordei às cinco. Por volta das seis, comecei a descer da casa até a margem do rio, primeiro com a canoa, sobre seu carrinho off-road, e depois fiz duas viagens de carro-de-mão, transportando toda a tralha, a comida e a água necessárias para os quatro dias de aventuras.
Pouco depois das sete e meia, saí finalmente remando em direção a Ilha de Erivan, já ciente que ia ser um desafio daqueles. O vento estava soprando com certa intensidade já de manhã cedo e meu itinerário do dia seria todo com vento contrário, atrapalhando bastante o serviço.
Perto do paredão da barragem, o rio Assu forma um lago gigante, largo cerca de cinco quilômetros. Para passar a tal ilha, que atualmente ilha não é, tem que jogar-se mesmo no meio do rio e passada a ponta mais extrema de terra firme, dar uma virada de 90° e seguir em direção ao rio Caraú. O rio Caraú é o maior afluente do rio Assu em sua margem direita. Aproximadamente, sete quilômetros a monte da foz, fundamos em 2008 o Campo Alfa, nossa meta do dia.
Com um vento discreto, um canoeiro solitário pode regular o ritmo da remada com a intensidade da brisa para manter o rumo aprumado. Quando o vento fica mais forte, a coisa complica um pouco e manter o rumo da canoa nos obriga a ter um ritmo de remada mais rápido e, eventualmente, a ter que alternar o lado da remada, para contrastar a oposição do vento e conseguir avançar positivamente.
Mantendo sempre um padrão de segurança alto, eu já sei até onde posso me arriscar, quando vale a pena remar contra o vento e quando é melhor parar e esperar o vento baixar.


Por isso, logo que cheguei finalmente na ponta extrema da ilha, parei para descansar um pouco e estudar a situação.
Com todo o entusiasmo do primeiro dia de aventuras, passados nem vinte minutos, voltei ao remo, mas a sensação de adversidade logo manifestou-se claramente. Ao mudar de rumo, o vento ficou soprando exatamente no sentido contrário.
Demorei um pouco, remando, a chegar na seguinte ponta de terra firme e lá parei de novo. Armei minha cadeirinha baixa, peguei biscoitos e geleia, aparelho gps e café.
Passamos mais de uma hora esperando o vento forte baixar, sem mudanças. À uma e meia, decidi que passadas as duas teria feito uma tentativa de encarar o vento e, lentamente, arrumei de novo tudo dentro da canoa.
Às duas, o vento baixou só um pouquinho e eu não perdi a chance. Saí remando em direção à foz do rio Caraú, um ponto imaginário indicado pelo gps no meio da barragem.

Com um pouco daquela sorte que a gente sempre tem numa hora ou outra, às duas e quinze o vento baixou bastante e me permitiu remar sem tanto esforço por uma meia hora.
Porém, logo recomeçou a soprar com certa força e eu não tinha como fazer outra coisa que continuar a remar, pois estava nessa altura já querendo mudar de margem para remontar o rio do lado onde se encontra o acampamento.
O vento quis testar minha determinação, come certeza, e eu lhe demonstrei que isso não me faz falta mesmo.
Foi nessa hora, já com o Sol lentamente descendo ao poente, que, um pouco depois do outro, dois barquinhos motorizados, de pescadores locais que não conhecia, provavelmente moradores de Três Postes, vieram me oferecer ajuda, caso estivesse em apuros. Um grande gesto de generosidade, que agradeci muito sinceramente, porque na hora da necessidade isso pode ser a salvação da pessoa. Segui remando numa boa, sabendo ter apenas mais dois quilômetros e meio de distancia para chegar ao Campo Alfa e, de qualquer jeito na verdade, sendo eu o único a usar um colete salva-vida, que como diz o nome é peça fundamental nessas atividades.


Remei o dia inteiro, pessoal, e só parei para tirar a foto do pôr do sol do dia de solstício por ser um momento simbólico.Cheguei ao Campo Alfa uma meia hora depois do pôr do sol, com a noite já querendo escurecer.
Com a área do acampamento distante uns cento e cinquenta metros de onde as plantas aquáticas nos deixaram chegar, antes de mais nada, abri de novo a cadeirinha espreguiçadeira, coloquei comida para Cabeça e depois preparei para mim uma bela salada mista abundante com sardinhas. Com a barriga cheia e o corpo cansado, pensei, pensei, e arrumei em três bolsas leves tudo o que tinha que levar pro acampamento numa vez só.
Com a lanterna de cabeça iluminando a trilha escura, fomos caminhando até o Campo Alfa.
Entrados por baixos das copas das arvores, escolhi o local mais limpo para armar minha rede sem muito trabalho, e acendi um pequeno fogo só para tomar um café.
Dormi rapidinho no balanço da rede. Quando a Lua nasceu no horizonte, vermelha quase sangrando, pensei na câmera fotográfica, mas não cheguei a pegar nela.
Boa noite.

Foto de Jack d'Emilia

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