Acordei às cinco. Por volta das seis, comecei a descer da casa até a
margem do rio, primeiro com a canoa, sobre seu carrinho off-road, e
depois fiz duas viagens de carro-de-mão, transportando toda a tralha, a
comida e a água necessárias para os quatro dias de aventuras.
Pouco
depois das sete e meia, saí finalmente remando em direção a Ilha de
Erivan, já ciente que ia ser um desafio daqueles. O vento estava
soprando com certa intensidade já de manhã cedo e meu itinerário do dia
seria todo com vento contrário, atrapalhando bastante o serviço.
Perto do paredão da barragem, o rio Assu forma um lago gigante, largo
cerca de cinco quilômetros. Para passar a tal ilha, que atualmente ilha
não é, tem que jogar-se mesmo no meio do rio e passada a ponta mais
extrema de terra firme, dar uma virada de 90° e seguir em direção ao rio
Caraú. O rio Caraú é o maior afluente do rio Assu em sua margem
direita. Aproximadamente, sete quilômetros a monte da foz, fundamos em
2008 o Campo Alfa, nossa meta do dia.
Com um vento discreto, um
canoeiro solitário pode regular o ritmo da remada com a intensidade da
brisa para manter o rumo aprumado. Quando o vento fica mais forte, a
coisa complica um pouco e manter o rumo da canoa nos obriga a ter um ritmo de remada mais rápido e, eventualmente, a ter que alternar o lado da remada, para contrastar a oposição do vento e conseguir avançar positivamente.
Mantendo sempre um padrão de
segurança alto, eu já sei até onde posso me arriscar, quando vale a pena
remar contra o vento e quando é melhor parar e esperar o vento baixar.
Por isso, logo que cheguei finalmente na ponta extrema da ilha, parei para descansar um pouco e estudar a situação.
Com todo o entusiasmo do primeiro dia de aventuras, passados nem vinte
minutos, voltei ao remo, mas a sensação de adversidade logo
manifestou-se claramente. Ao mudar de rumo, o vento ficou soprando
exatamente no sentido contrário.
Demorei um pouco, remando, a chegar
na seguinte ponta de terra firme e lá parei de novo. Armei minha
cadeirinha baixa, peguei biscoitos e geleia, aparelho gps e café.
Passamos mais de uma hora esperando o vento forte baixar, sem mudanças. À
uma e meia, decidi que passadas as duas teria feito uma tentativa de
encarar o vento e, lentamente, arrumei de novo tudo dentro da canoa.
Às duas, o vento baixou só um pouquinho e eu não perdi a chance. Saí
remando em direção à foz do rio Caraú, um ponto imaginário indicado pelo
gps no meio da barragem.
Com um pouco daquela sorte que a gente sempre tem numa hora ou outra, às duas e quinze o vento baixou bastante e me permitiu remar sem tanto esforço por uma meia hora.
Porém, logo
recomeçou a soprar com certa força e eu não tinha como fazer outra coisa
que continuar a remar, pois estava nessa altura já querendo mudar de
margem para remontar o rio do lado onde se encontra o acampamento.
O vento quis testar minha determinação, come certeza, e eu lhe demonstrei que isso não me faz falta mesmo.
Foi nessa hora, já com o Sol lentamente descendo ao poente, que, um
pouco depois do outro, dois barquinhos motorizados, de pescadores locais
que não conhecia, provavelmente moradores de Três Postes, vieram me
oferecer ajuda, caso estivesse em apuros. Um grande gesto de
generosidade, que agradeci muito sinceramente, porque na hora da
necessidade isso pode ser a salvação da pessoa. Segui remando numa boa,
sabendo ter apenas mais dois quilômetros e meio de distancia para chegar
ao Campo Alfa e, de qualquer jeito na verdade, sendo eu o único a usar
um colete salva-vida, que como diz o nome é peça fundamental nessas
atividades.
Remei o dia inteiro, pessoal, e só parei para tirar a foto do pôr do sol do dia de solstício por ser um momento simbólico.Cheguei ao Campo Alfa uma meia hora depois do pôr do sol, com a noite já querendo escurecer.
Com a área do acampamento distante uns cento e cinquenta metros de onde
as plantas aquáticas nos deixaram chegar, antes de mais nada, abri de
novo a cadeirinha espreguiçadeira, coloquei comida para Cabeça e depois
preparei para mim uma bela salada mista abundante com sardinhas. Com a
barriga cheia e o corpo cansado, pensei, pensei, e arrumei em três
bolsas leves tudo o que tinha que levar pro acampamento numa vez só.
Com a lanterna de cabeça iluminando a trilha escura, fomos caminhando até o Campo Alfa.
Entrados por baixos das copas das arvores, escolhi o local mais limpo
para armar minha rede sem muito trabalho, e acendi um pequeno fogo só
para tomar um café.
Dormi rapidinho no balanço da rede. Quando a Lua
nasceu no horizonte, vermelha quase sangrando, pensei na câmera
fotográfica, mas não cheguei a pegar nela.
Boa noite.
Foto de Jack d'Emilia







Nenhum comentário:
Postar um comentário